Vulnerabilidade é o berço da inovação, criatividade e mudança

Por que IBM, Pixar e Silicon Valley estão ouvindo Brené Brown sobre liderança

Brené Brown é graduada, pós-graduada e doutorada em Serviço Social pela Universidade de Houston, onde ensina e faz pesquisas sobre coragem, vulnerabilidade, empatia e vergonha, temas que parecem mais apropriados ao consultório de um analista, mas que ela vem trazendo – e com grande sucesso – ao cenário corporativo há quase uma década. Autora de diversos livros, a maioria deles publicados no Brasil pela Sextante, a professora-pesquisadora tornou-se palestrante internacional e criou a própria empresa de consultoria, na esteira do estrondoso sucesso de um TED Talk em 2010, “O Poder da Vulnerabilidade”, que está com mais de 42 milhões de visualizações mundo afora, um dos cinco mais vistos da plataforma (clique no link no pé da página para assistir).

O ponto de convergência entre os estudos de emoções tão humanas quanto desconfortáveis, como a vulnerabilidade e a vergonha, com o mundo empresarial é justamente o quanto a compreensão destas emoções impulsiona o crescimento individual, abrindo o caminho para a criatividade e inovação tão incensados no competitivo ambiente de negócios atual: “Existe alguém que não precise, diariamente, navegar em meio à incerteza e ao risco? Estar vivo é ser vulnerável; ser um líder é ser vulnerável, a cada minuto do dia. Você não tem a opção de pedir pra sair,” diz Brené.

A coragem é um fator fundamental para sermos criativos. Sem ela, permanecemos no status quo, com medo de falhar

Brené acredita piamente que se os profissionais de hoje pudessem praticar mais a vulnerabilidade no trabalho, um novo mundo de inovação se abriria, pleno de alegria e criatividade, para pessoas e empresas. O argumento é que quando não aceitamos o risco de nos expor, a possibilidade de errar, não alcançamos o estado criativo onde soluções e novas ideias habitam. Ela entrevistou milhares de pessoas das mais diversas áreas em suas pesquisas, e concluiu que aquelas que demonstravam mais satisfação com seus trabalhos e suas vidas apresentavam três importantes características: coragem (para ser imperfeito, para tentar, mesmo com a possibilidade de errar), compaixão (consigo mesmo, em primeiro lugar, e também com os outros); e conexão, a capacidade de interagir com os demais com autenticidade. Eram pessoas que haviam aprendido a ser vulneráveis.

Assumindo uma voz muito própria no variado círculo de gurus/consultores empresariais, com bom humor e leveza Brené vai espalhando seu mantra em palestras e workshops para lideranças em Silicon Valley, empresas como Pixar, IBM, o time de futebol americano Seattle Seahwaks, a Fundação Bill e Melinda Gates. Seus livros,  cinco deles listados entre os mais vendidos do jornal New York Times –  “Eu achava que isso só acontecia comigo” (2007), “A Arte da Imperfeição” (2010), A Coragem de Ser Imperfeito” (2012), “Mais Forte do Que Nunca” (2015), e o mais recente “A Coragem para Liderar” (2018) – foram traduzidos para mais de 30 idiomas.

Em abril/2019, “The Call to Courage” entrou no Netflix, primeira palestra a ser disponibilizada no canal

Encarar a própria vulnerabilidade foi uma tarefa hercúlea, revelou ela no famoso TED Talk, mas também foi o passo para o reconhecimento internacional: “eu mesma mandava meus artigos para jornais locais, não para o New York Times, divulgava meus estudos em pequenas redes, não ousava. Ousar representa encarar críticas, pessoas que não concordam com você, e isso é assustador. Eu não assumia a minha vulnerabilidade, portanto não assumia minha própria voz,” revela ela, sem desculpas, sem embaraço. Com este estilo despojado, conquistou líderes como Melinda Gates: “Brené me ensinou que a liderança requer que você admita o que não sabe, ao invés de fingir que sabe tudo. Eu adoro sua mensagem sobre a vulnerabilidade ser a chave para construir confiança,” diz a esposa de Bill Gates e co-fundadora da fundação Gates. “Ela fala de conceitos que são incrivelmente relevantes para a transformação da liderança, de uma forma que é cientifica e muito humana,” diz Deb Bubb, responsável pelo programa de liderança, aprendizado e inclusão da gigante IBM. Para o co-fundador e CEO da empresa de computação na nuvem Nutanix, Dheeraj Pandey, Brené “tornou-se uma vantagem competitiva e uma arma secreta para nossa cultura. Em alguns momentos eu surpreendo os engenheiros, numa situação de tensão, dizendo uns aos outros: Ei, você precisa ser vulnerável!”

Apesar de soarem conhecidos, os ensinamentos da autora são certamente um desafio para o mundo corporativo, acostumado a criar ambientes impessoais, exigir padrões de sucesso e profissionalismo algumas vezes inalcançáveis e ter pouco apreço por manifestações que podem parecer fraqueza. Brené alerta: vulnerabilidade não é fraqueza, é o oposto de fraqueza. “Quando perguntei às pessoas, na pesquisa, o que era vulnerabilidade,” explica ela, “ouvi coisas como: vulnerabilidade é o primeiro encontro após o meu divórcio, é começar minha nova empresa, é assumir quando alguma coisa deu errado no trabalho, é conversar com a minha mulher, que tem câncer terminal, sobre a criação dos nossos filhos. No meu trabalho, defino vulnerabilidade como incerteza, risco e exposição emocional. É a capacidade de dar as caras, expor-se, mesmo quando não há nenhuma garantia.”

Finalmente, vale trazer a passagem de um discurso proferido em 1910, que a autora repete em muitas ocasiões (você vai ouvi-lo nas palestras). Ficou conhecido como “O Homem na Arena,” e o autor foi Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos: “Não é o crítico que importa; nem aquele que aponta onde o homem tropeçou ou como o autor das façanhas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está por inteiro na arena da vida, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue; que luta bravamente; que erra, que decepciona, porque não há esforço sem erros e decepções; mas que, na verdade, se empenha em seus feitos; que conhece o entusiasmo, as grandes paixões; que se entrega a uma causa digna; que, na melhor das hipóteses, conhece no final o triunfo da grande conquista e que, na pior, se fracassar, ao menos fracassa ousando grandemente”.

Crédito da foto capa: Aaron Pinkston/Netflix