Rachel Botsman, a guru mundial da economia colaborativa

Economia compartilhada é uma revolução tão importante quanto a revolução industrial, afirma a autora

Airbnb e Uber não eram tão populares em 2010, quando Rachel Botsman colocou em livro os fundamentos da economia colaborativa: o poder do compartilhamento, através da tecnologia, otimizando espaços, competências, objetos, e possibilitando trocas numa escala jamais experimentada. O livro “O que é Seu é Meu: Como o Consumo Colaborativo Vai Mudar o Nosso Mundo” ajudou a colocar a britânica de 41 anos na posição de autoridade mundial no estudo de uma área tão nova que coube à própria autora formular a disciplina que está ministrando na Saïd Business School da Universidade Oxford, sua alma mater, o primeiro MBA de seu tipo no mundo.

Compreender a nova força da economia compartilhada valeu à autora o reconhecimento de instituições como a Thinkers50 (ganhadora do Prêmio Breakthrough Idea de 2015), da revista Time (‘Uma Ideia que Vai Mudar o Mundo’), da Fast Company (Uma das ‘Pessoas mais Criativas nos Negócios’), mas também do Fórum Econômico Mundial (Young Global Leader) e dos diversos veículos com os quais colabora frequentemente, como Harvard Business Review, Wall Street Journal, The Economist, New York Times, The Guardian, The Financial Times, Wired.

A tecnologia potencializou o poder da colaboração

Além de astuta investigadora de tendências, talento que aprimorou após ter vivido em quatro continentes, Rachel tornou-se uma palestrante internacional de grande sucesso, falando para plateias governamentais, privadas, associações empresariais e civis em dezenas de países. Outro talento da pesquisadora é tratar com simplicidade um tema que pode soar complexo, ou seja, a influência da tecnologia na vida cotidiana e como isso mudou totalmente o jogo da economia moderna: “A tecnologia literalmente conectou nosso mundo e criou a eficiência e confiança para o compartilhamento em uma escala que nunca foi possível antes,” disse em entrevista à revista eletrônica Marketing, em agosto de 2015. “Na primeira onda, experimentamos como esta interconectividade facilitou compartilhar informação através do e-mail. Daí entramos na segunda onda, onde a emergência de redes sociais possibilitou a troca de fotos, vídeos e música. O que está acontecendo agora é o surgimento da terceira onda, onde é possível compartilhar tudo, desde uma casa até uma carona ou uma furadeira elétrica. O estudo destas diferentes ondas comportamentais que envolvem o compartilhar me levou a focar na terceira onda, a que chamei consumo colaborativo, ou o que agora é conhecido como economia compartilhada.”

 

O livro de 2010 foi escrito em parceria com Roo Rogers

 

Rachel explica como sistematizou suas descobertas, delineando cinco teorias, tendo início com o Consumo Colaborativo, em 2010, que explica a reinvenção do comportamento de mercados tradicionais – aluguéis, empréstimos, compartilhamento, permutas – através da tecnologia, em locais e escala nunca antes possíveis. O princípio desta teoria é a ‘capacidade ociosa’, o poder da tecnologia para liberar o valor social, econômico e ambiental de ativos subutilizados.

A segunda teoria chama-se Economia Compartilhada e Confiança (2010-2012), que ela define como um sistema econômico baseado no compartilhamento de valores e serviços subutilizados, gratuitamente ou em troca de uma taxa, diretamente entre indivíduos. Esta teoria baseia-se fortemente em mercados que surgem entre pessoas, que dependem da ‘cola’ social da confiança entre estranhos. Os provedores nestes mercados são habitualmente conhecidos como microempreendedores.

A seguir vem a teoria do Capital da Reputação (ou reputacional), de 2012, onde Rachel defende que estamos vendo o princípio de uma mudança, onde teremos mais confiança em pessoas do que em corporações ou governos. Esta nova era da confiança precisa de uma medida, ou ‘capital da reputação’. “Defino esta teoria como o valor da soma dos comportamentos online e offline, permeando as comunidades e mercados. Ela irá transformar como nós vemos a riqueza, mercados, poder e identidade pessoal no século 21,” explica.

A quarta teoria é a da Economia Colaborativa (2014), compreendida como um sistema econômico que liberta o valor de ativos subutilizados através de plataformas que fazem o ‘casamento’ entre os que têm e os que desejam, permitindo maior acesso e eficiência. Para Rachel, “sistemas com desperdício, redundância de intermediários, complexidade, acesso limitado e confiança comprometida estão maduros para a disrupção neste modelo.”

Finalmente, na teoria da Moeda da Confiança (2016), a autora explica que a forma como a confiança é construída, gerida, perdida e consertada, seja em relação a marcas, líderes e mesmo sistemas, está mudando totalmente. A tecnologia está criando novos mecanismos que permitem confiar em pessoas, empresas e ideias desconhecidas. “Lembre de Airbnb, Tinder e Bitcoin,” diz. Ao mesmo tempo, Rachel acredita que a confiança em instituições está se desmantelando: “uma mudança está ocorrendo, do que era definido no século 20 como confiança institucional, para o que será conhecido no século 21 como ‘confiança distribuída’ através de enormes redes de pessoas, organizações e máquinas inteligentes.

Seu novo livro foi lançado em 2017, uma análise da construção da confiança entre empresas, governos e o público, com título Who Can You Trust?: How Technology Brought Us Together – and Why It Could Drive Us Apart, ainda sem tradução. Na obra, ela argumenta que a transparência buscada pelas organizações é geralmente uma reação a uma quebra de confiança, nem sempre a resposta certa para solucionar sua falta: “Confiança precisa ser construída com competência, confiabilidade, empatia e integridade, ao longo do tempo, através de comportamentos e valores.”

Com três TED Talks assistidos por mais de 3,5 milhões de pessoas e dois livros traduzidos para 12 idiomas, a pesquisadora certamente angaria, a cada novo trabalho, mais interesse do mercado. Um mercado global, onde conceitos intangíveis como confiança, compartilhamento e colaboração são o fundamento, ‘a cola social’ de um novo jogo, que está apenas começando.

 

Foto capa: Heisenberg Media

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