Por que os homens não precisam explicar nada a Rebecca Solnit

Mudança climática, reações humanas aos desastres, feminismo e violência contra a mulher: as multifacetas da escritora e ativista

A escritora, historiadora e ativista americana Rebecca Solnit nasceu num subúrbio de Connecticut, Bridgeport, mas foi criada, educada e polida pelas experiências do ambiente multicultural da Califórnia, para onde mudou-se com os pais (ele de origem judaica, ela católica-irlandesa) aos cinco anos. Na adolescência, estudou em Paris, para mais tarde retornar à costa oeste e graduar-se em Jornalismo pela Universidade de Berkeley.

Rebecca é colunista da Harper’s Magazine e autora de vinte livros que passeiam entre temas tão variados quanto o feminismo, história ocidental e indígena, poder popular, mudança social e insurreição, “caminhando e pensando, esperança e desastre,” como ela descreve em sua página na internet. Vários títulos foram traduzidos, mas certamente o mais polêmico, publicado em 2014 nos Estados Unidos, é “Os Homens Explicam Tudo Para Mim” (Cultrix, 2017), um conjunto de ensaios que inclui “Men Explain Things to Me”, onde ela aborda a forma condescendente através da qual os homens explicam coisas às mulheres. A popularidade do neologismo ‘mansplaining’ (algo como homexplicando, em português), que acabou sendo inserido no dicionário Oxford,  teve início com o livro, mas ela confessa que não o criou: “uma candidata a PhD me disse quão importante havia sido a criação do termo, porque dava nome a algo que todas mulheres já haviam sentido, mas não tinham como definir. Isto é algo que me interessa: dar nome às experiências e como aquilo que não tem nome pode ser reconhecido e compartilhado. Palavras são poder. Então, se esta palavra nos permite falar sobre uma coisa que acontece o tempo todo, fico feliz que ela exista e por ter contribuído.”

A força do movimento feminista atual é um acerto de contas, e ainda não acabou

Um fenômeno atual e igualmente polêmico – as redes sociais e seu potencial de disseminar ódio e preconceito – também é foco da autora. “As redes sociais são para homexplicadores o que os cachorros são para as pulgas, e o recente debate feminista trouxe à tona uma horda deles. A partir da publicação de “Os Homens Explicam Tudo Para Mim”, cada vez mais eles têm explicado a experiência feminina para mim e outras mulheres. Com o debate explosivo desde os assassinatos da Isla Vista (massacre ocorrido em maio de 2014, na região de Isla Vista, próximo à Universidade de Santa Barbara, Califórnia, onde Elliot Rodger, de 22 anos, matou sete pessoas e após ferir várias outras, suicidou-se. O motivo seria a ‘rejeição das mulheres’), houve um aumento dramático de homens explicando o feminismo e as experiências das mulheres ou simplesmente negando que precisamos do feminismo e que tivemos aquelas experiências. Se fosse possível dar troféus, um iria para o homem que disse a mim e a uma amiga que 1) as mulheres realmente gostam de receber assobios na rua, e 2) como um homem que tem convivido com outros homens em ambientes exclusivamente masculinos, ele sabe que os homens não falam das mulheres desta forma. Então, nós gostamos de assédio na rua, mas isto realmente não existe, porque nós somos simplesmente malucas, nós mulheres, subjetivas, imaginativas, não confiáveis. Apenas pergunte a um expert, que não seja uma mulher”, contou a autora em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

 

O segundo título feminista da autora, lançado em 2017 pela Cia. das Letras

 

Rebecca também volta seu olhar multifocal a eventos traumáticos e pontuais, como no livro “A Paradise Built in Hell: The Extraordinary Communities that Arise in Disaster”, onde demonstra como desastres, naturais ou provocados pelo homem, podem catalisar o que há de melhor, mais altruísta, corajoso e resiliente nas pessoas. A obra tem base em cinco momentos trágicos ocorridos na América do Norte – o terremoto de 1906 que destruiu San Francisco; a explosão em 1917 que matou duas mil pessoas em Halifax, Nova Scotia; o terremoto de 1985 que atingiu a Cidade do México; o 11 de Setembro e o Furacão Katrina, em New Orleans. Passeando também pela Blitz de Londres (1940-41), o caos econômico da Argentina em 2001, a visão de Hollywood sobre desastre e heroísmo, anarquistas, sociólogos do desastre e outras formas de engajamento social criados pela sociedade, ela argumenta que as pessoas que vivem estas situações têm seu estado mental transformado por uma utopia temporária, e que a conectividade social que nasce após os desastres pode nos ajudar a criar uma nova visão de como a sociedade pode ser, mais colaborativa, cooperativa e local.

Em setembro de 2017, a Cia. das Letras lançou no Brasil o título “A Mãe de Todas as Perguntas”, que na realidade se refere a várias perguntas, todas envolvendo a questão feminina atual. Em entrevista à Folha de São Paulo na ocasião, Rebecca declarou que a radicalização do movimento feminista atual é “um acerto de contas, e ainda não acabou. Há homens que lutam contra a ideia de que mulheres são seres humanos iguais a eles. A humanidade, o poder e a inteligência das mulheres os perturbam e à sua busca pelo domínio. Espero que essa espécie de homem entre em extinção para o bem de todos, pois essa é a suposição por trás da violência doméstica: tenho o direito de controlar você, sou seu dono, você não tem direitos, nem à integridade de seu corpo, nem mesmo direito à vida.”