Mudar hábitos, produtividade e o que isso tem a ver com sucesso

Charles Duhigg mistura ciência e faro jornalístico para desvendar a produtividade

Para aqueles de nós que levam uma vida, digamos, menos esquematizada, Charles Duhigg pode parecer apenas mais um escritor bem-sucedido na moderna arte de ensinar a produtividade, e através dela, como alcançar o esquivo sucesso profissional. Entretanto, é justamente o aspecto humano e imprevisível das experiências de Duhigg – que ele conta com bom humor, ao longo de entrevistas e nos próprios livros – o diferencial que atrai o leitor às teorias desenvolvidas pelo autor de 45 anos.

Duhigg decidiu enveredar pelo jornalismo enquanto fazia planilhas financeiras como estagiário em uma empresa de investimentos, durante o MBA na Harvard Business School. Ao mesmo tempo, ele aproveitava para escutar o programa semanal de rádio “This American Life,” que a cada episódio conta uma história diferente, envolvendo temas tão variados quanto os candidatos a candidato na próxima eleição americana, ou a vida nem-tão-romântica dos americanos na Paris atual. Foi aí que decidiu contar histórias, e rumou para o jornal Washington Post logo após a formatura.

A carreira no jornalismo teve início em 2003, no Los Angeles Times, onde ele atuou na seção de vida ao ar livre, mídia e entretenimento, mas também cobriu as operações militares americanas no Iraque. Em 2006, transferiu-se para o New York Times, e foi agraciado com o Prêmio Pulitzer de 2013 em Jornalismo Investigativo, pela série elaborada por um time de profissionais “iEconomy”, uma análise dos impactos de operações globais de empresas de tecnologia, tendo por base a Apple, com matérias in loco na China e uma abordagem realista das práticas de exploração de trabalhadores, uso de brechas na legislação para transferência de lucros, ambientes de trabalho inadequados e perigosos, entre outros.

Cobrir a guerra do Iraque deu início à criação do Poder do Hábito

O primeiro sucesso, “O Poder do Hábito, Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios” foi lançado em 2012, e passou três anos na lista de mais vendidos do jornal New York Times. Nele, Duhigg engaja estudos científicos para explicar como formamos hábitos e como podemos identificar e mudar aqueles que não são favoráveis ao desenvolvimento pessoal e profissional.

A história que ele conta sobre o nascimento do livro, no entanto, é bem mais interessante que os estudos científicos, que não obstante o talento de Duhigg apresenta de forma leve e divertida em palestras pelo mundo todo. Durante a cobertura da guerra do Iraque em 2006, o jornalista conheceu um major do exército cuja missão era interromper a série de distúrbios populares que se perpetuavam na praça central da cidade de Kufa. Como muitos que tiveram a experiência militar sabem, missão dada é missão cumprida, e assim foi com o major. Após conversar com o prefeito da cidade e pedir que fossem retirados os vendedores de kebabs e outros alimentos da praça central, os distúrbios cessaram. O observador major compreendeu o hábito dos populares – a maioria do público que se aglomerava na praça – e estes, sem a possibilidade de fazer um lanche após horas em pé, aguardando os movimentos do núcleo de baderneiros, simplesmente perdiam a vontade de ficar, e iam embora. O núcleo causador de baderna, sem a presença do povo, se desmotivava e desistia da arruaça. O vídeo selecionado abaixo conta esta história.

Na lista de mais vendidos nos EUA já no mês de lançamento

O sucesso do primeiro livro, que teve trechos reproduzidos no New York Times sob título “Como as empresas descobrem seus segredos” levou ao segundo, “Mais Rápido e Melhor – Os segredos da produtividade na vida e nos negócios”, de 2016, também lançado no Brasil pela Cia. das Letras. Neste, Duhigg aterrissa em territórios inusitados, entrevistando agentes do FBI, cientistas de dados do Google, cineastas da Disney, professores de escola pública em Ohio, para levantar oito lições fundamentais sobre produtividade, as quais ele apresenta com texto jornalístico e acessível. “Produtividade é o nome que damos às nossas tentativas de descobrir a melhor forma de usar nossa energia, nosso intelecto e nosso tempo, conforme tentamos obter as recompensas mais significativas, com o mínimo de esforço desperdiçado. É um processo de aprendizado sobre como ter sucesso com menos estresse e dificuldade. É realizar algo sem sacrificar tudo o que importa no caminho,” afirma ele.

Julgando pelo índice, “Mais Rápido e Melhor” poderia ser mais um livro de administração/gestão de pessoas/inovação (e o mercado certamente já tem uma abundância deles): Motivação, Equipes, Foco, Determinação de Metas são alguns dos títulos dos oito capítulos e 341 páginas do best-seller. A abordagem, entretanto, está mais para expansão que para contração, ou seja, nasce nas pessoas, com suas múltiplas peculiaridades, para encontrar caminhos que não só solucionam problemas, mas também criam e desafiam, subvertendo a técnica do checklist e das respostas de manual.

Partindo do humano para o operacional, Duhigg não é apenas mais um guru que se debruça sobre temas que excitam a curiosidade de workaholics mundo afora, ao contrário. Um morador do Brooklyn nova-iorquino, casado e pai de dois filhos, ele compreende muito bem a pressão colocada sobre profissionais e empresas, em tempos de hipervalorização do sucesso, foco em resultado e pressa constante. Para o autor, estamos prestando atenção às inovações erradas, focando nas ferramentas da produtividade, e não nas lições que podem ensinar. Trata-se de fazer as escolhas certas, identificar metas que tornam exequível mesmo o mais ousado projeto, enxergar as oportunidades nos problemas. Enfim, “reconhecer as escolhas que fomentam a verdadeira produtividade.” E ficar mais inteligente no processo.