“Minha História”, livro autobiográfico de Michelle Obama, é megassucesso mundial

A ex-primeira dama americana desponta como autora de bestseller e palestrante internacional seis estrelas

Michelle Obama trilhou o difícil caminho de muitos afro-americanos, driblando a infância de poucos recursos no subúrbio de classe média-baixa de South Side, em Chicago, até graduar-se em Direito em uma das universidades mais famosas do mundo, Harvard, e firmar-se na carreira de advogada em um escritório de sua cidade. Foi lá que conheceu o jovem Barack, apenas três anos mais moço, e passou a atuar como sua mentora profissional. O casamento com Barack, entretanto, trouxe desafios inimagináveis para a advogada, que logo se tornaria mãe de duas filhas, reinaria na Casa Branca e escreveria a autobiografia mais vendida no mundo.

Com o início da campanha presidencial, a visibilidade de Michelle atingiu picos poucas vezes alcançados por esposas de presidenciáveis na história dos Estados Unidos. A personalidade forte, acompanhada pela larga experiência em fazer-se ouvir em ambientes diversificados, muitas vezes hostis, e um apurado senso para reconhecer e lutar por causas sociais, demonstrado na atuação na Casa Branca, foram elementos muito cedo reconhecidos pela imprensa e alardeados mundo afora. Para alguns, Michelle era um ponto positivo para Barack, então senador pelo estado de Illinois; para outros, seu caráter determinado e extrovertido representava exatamente o oposto. Em 2009, Barack Obama foi eleito o primeiro presidente afro-americano do país, e a popularidade da esposa, primeira de sua etnia a ocupar a posição de primeira-dama, só fez subir.

Dar visibilidade a causas sociais levou Michelle a uma posição de liderança nacional

As questões vividas na infância e adolescência foram motivadoras de campanhas lançadas a partir de Washington, para transformar todo o país. Com a participação das filhas, plantou uma horta nos jardins da Casa Branca e passou a estimular a alimentação saudável e a prática de exercícios físicos, convidando crianças de escolas públicas a participar e disseminar a ideia em suas escolas e bairros. A menina vítima de racismo identificou desde cedo a importância de desenvolver a autoestima das crianças, combatendo a obesidade em uma campanha nacional de promoção da alimentação saudável. A campanha acabou influenciando a poderosa indústria de alimentos americana, habituada a oferecer alimentos fast-food com altos teores calóricos e pouca substância nutricional. Em aparições pelo país, Michelle foi a porta-voz firme, mas amorosa, da mensagem em prol do desenvolvimento e inclusão de grupos menos favorecidos, especialmente meninas e mulheres, usando a si mesma como exemplo. Com a mesma linguagem simples e direta adotada no livro, a oradora carismática e envolvente deixou sua marca nas vidas de milhares, ensinando que superar as expectativas – as próprias e aquelas impostas pela sociedade – é possível. Afinal, ela conseguiu.

A autobiografia já vendeu no Brasil cerca de 40 mil cópias – um recorde nacional

O livro Minha História, lançado no final de 2018, já vendeu mundo afora cerca de 10 milhões de cópias. Traduzido para o português, foi lançado no Brasil em novembro do ano passado pela Objetiva, e desde então figura nas listas de mais vendidos de revistas como a semanal Veja e o jornal Folha de São Paulo.

A autobiografia foi traduzida para 24 idiomas

A primeira parte do book-tour americano, realizada até pouco antes do Natal de 2018, aconteceu em 10 cidades americanas, em estádios e gigantescos auditórios, onde a média de público foi de aproximadamente 20 mil pessoas. No Barclays Center, no bairro do Brooklyn nova-iorquino, 19 mil pessoas esperaram por horas numa fila que dava voltas no quarteirão. Os tickets foram colocados à venda pela mesma companhia que faz os shows da consagrada estrela Beyoncé. O pagante do valor máximo de três mil dólares tinha direito, além de assistir na primeira fila, a uma sessão ‘meet+greet’, que no jargão do negócio quer dizer apertar a mão/dar um abraço rapidamente e sair. Na loja de suvenires, uma camiseta estampada com passagens do livro podia ser adquirida por 65 dólares, uma vela ‘Encontre a Sua Chama’ por 35 dólares. Entretanto, conforme artigo publicado no New York Times, há valores baixos pelo ingresso, como U$ 29,50 e, além disso, num gesto que tem ressonância com a imagem emanada pela ex-primeira dama, 10% dos tickets em cada evento são distribuídos para ONGs, escolas e grupos comunitários.

O tour promocional do livro continuará em 2019 com mais 11 cidades nos Estados Unidos, seis na Europa e quatro no Canadá. A data originalmente planejada para Paris, em dezembro passado, foi remarcada para que Michelle pudesse estar presente aos funerais do ex-presidente George W. Bush.

O carisma de Michelle transforma um megaevento numa conversa entre amigos

Com a franqueza que se tornou marca registrada, Michelle cativa audiências e se firma como exemplo de gerações mais jovens, principalmente as que fazem parte do grande contingente que sobrevive em subempregos, carente de formação profissional mais qualificada. No livro, ela não teve problema em expor que o casal mais poderoso do país fez terapia após o nascimento das filhas, contou sobre abortos espontâneos e dificuldade para engravidar, coisas que a trazem para o ambiente diário de qualquer um de seus conterrâneos, e cala fundo no coração feminino. Se os anos de Casa Branca foram de ações e palavras medidas, a Michelle atual pode se expressar sem pruridos: “O protocolo saiu pela janela, pessoal”, gritou para o público no evento em Nova York. Mas reconhecendo a importância do papel que ocupava, emendou: “quando você é o presidente e a primeira dama, seu trabalho não é ser indulgente consigo mesmo. Havia muitas coisas que eu poderia ter compartilhado, mas você não quer que o país se preocupe com o casal presidencial. Nada daquilo era sobre nós, aqueles oito anos eram focados no serviço ao país. Barack e eu sentíamos que não havia margem para erros.”

Michelle Obama fez aparição relâmpago na cerimônia de entrega do Grammy em fevereiro/2019 – cinco dos oito indicados a álbum do ano eram mulheres

O momento atual é favorável não apenas para ela, mas também para o marido. Após a saída da presidência, Barack e Michelle assinaram um contrato para publicação de suas biografias no valor de 65 milhões de dólares – a dele deve ser publicada ainda este ano. Além disso, concordaram em criar para a Netflix uma série de sete atrações que, conforme divulgado pelo jornal The Guardian no final de abril, incluem documentários, filmes e séries, oriundos de material inédito ou aquisição, para públicos de todas as idades. O valor do negócio, de 50 milhões de dólares, foi celebrado através da produtora do casal, Higher Ground Productions. Como palestrantes internacionais, Barack está cotado pela bagatela de 400 mil, e ela por 225 mil dólares por evento.

Um dia antes de publicarmos este post, a Netflix anunciou o lançamento do documentário “American Factory” no dia 21 de agosto, primeira produção da Higher Ground. Trata-se da história de um milionário chinês que constrói uma fábrica no estado de Ohio e os conflitos com a cultura operária local. O documentário recebeu o prêmio de melhor direção no Festival Sundance.

 

Foto Capa: Kamil Krzaczynski/Reuters. Web Foundation.