Jean Tirole, um Nobel pelo Bem Comum

“Economistas têm ferramentas que podem ajudar governos a criar sociedades mais equilibradas”

Jean Tirole ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2014 por sua pesquisa sobre o poder do mercado e da regulação de monopólios, áreas de pouco entendimento para a maioria dos mortais. A popularidade pós-Nobel, entretanto, colocou o laureado professor da Escola de Economia Toulouse, sediada na cidade francesa de mesmo nome, e professor visitante no MIT (Massachusetts Institute of Technology), em posição de opinar sobre temas diversos, bem mais próximos das nossas preocupações cotidianas.

Foi a partir desta experiência que o francês de 66 anos se pôs a meditar sobre os desafios da revolução tecnológica e do populismo, questões que ultrapassam fronteiras nacionais, rankings de desenvolvimento e números de PIB. O resultado é o livro “Economia do Bem Comum”, lançado na França em 2016 e traduzido em Portugal pela Guerra e Paz em 2018, onde Tirole expõe o que acredita ser um caminho para governos, empresas e cidadãos alcançarem bons níveis de desenvolvimento e qualidade de vida: a busca pelo bem comum, o ideal coletivo de práticas e políticas boas para toda a sociedade, não somente para o indivíduo.

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Tirole define bem comum como uma referência ao anseio coletivo da sociedade. “A questão é como esse desejo coletivo pode ser definido,” explica ele. “Nosso julgamento é afetado por nossas preferências individuais, as informações à nossa disposição e nossa posição na sociedade. A melhor maneira de fazer frente a esses vieses que todos temos é o experimento conhecido como ‘véu da ignorância’. O véu da ignorância é um experimento que tem origem no século 17, com os filósofos John Locke e Thomas Hobbes, e consiste em imaginar que você ainda não nasceu e não sabe nada sobre sua família, etnia, religião, genética, saúde, ou se vai nascer em berço pobre ou rico. Em que tipo de sociedade você gostaria de nascer? A resposta provavelmente será uma sociedade com amplo sistema de saúde, educação pública de qualidade, um sistema tributário redistributivo, políticas públicas que oferecem um seguro contra o risco de nascer em uma família pobre. Podemos dizer também que a maioria das pessoas não gostaria de viver numa sociedade dominada por cartéis de empresas. Há muitas outras possibilidades quando usamos a ideia do véu.”

A busca do bem comum permite o uso privado de bens para o bem-estar dos indivíduos, mas não o abuso deles em detrimento de outros

O exercício proposto por Tirole pode soar ingênuo considerando os enormes desafios do avanço tecnológico, que ameaça deixar milhões sem emprego, ou a crescente descrença na democracia, já apontada por estudiosos como Yascha Mounk, ou ainda a sombra do populismo, que paira sobre diversos países. Não obstante, no mundo corporativo, a decisão, tomada há poucos dias pela associação das mais poderosas empresas americanas – Business Roundtable – aponta justamente nesta direção:  em comunicado oficial, o presidente da associação, que reúne os presidentes executivos de 181 das maiores corporações do país, Jamie Dimon (CEO de nada menos que o Banco JP Morgan Chase), anunciou que seus associados deixarão de colocar o foco de suas empresas na maximização dos lucros dos acionistas, para favorecer também os funcionários, clientes e comunidades. Basicamente, o documento compromete-se a buscar cinco objetivos: entregar serviços ou bens de valor aos clientes; investir nos funcionários e recompensá-los de maneira justa; negociar de forma justa e ética com os fornecedores; apoiar as comunidades em que as empresas estão inseridas; gerar rentabilidade de longo prazo para os acionistas. É a mudança mais radical da entidade em 20 anos, e reflete a preocupação com a sustentabilidade das empresas no longo prazo. Representa também um dos mais relevantes e inequívocos sinais de comprometimento do mundo corporativo, desde o princípio do movimento da responsabilidade social corporativa, nos primeiros anos da década de 90.

Mas como os economistas podem ajudar a criar uma sociedade mais justa? Tirole argumenta que eles não podem substituir a sociedade na definição de seus objetivos, mas podem contribuir para que sejam atingidos. “O papel dos economistas é analisar situações em que o interesse individual entra em conflito com o interesse coletivo, e como poderemos, ao final, chegar a um resultado que reforce o bem comum. Nossa primeira missão é apresentar uma caixa de ferramentas, que poderá medir se um conjunto de políticas públicas está atingindo seu objetivo. Também podemos avaliar se outros instrumentos poderiam atingir resultados melhores,” explica.

Tirole também afirma que os economistas têm a missão de alertar a sociedade quando o Estado ataca aquilo que ela considera o bem comum. “Políticos têm a tendência a ter uma visão de curto prazo, em função do ciclo eleitoral. Alguns exemplos das consequências: aquecimento global, dívida pública, sistema de previdência insustentável, desigualdade social, desemprego, educação de baixa qualidade.  Estes são problemas que os políticos estão deixando para as novas gerações. Há também o risco de governos errarem por se tornarem reféns de lobby, ou por questões internacionais.”

Pode-se argumentar que estudiosos e economistas, encastelados em ambientes acadêmicos, teriam pouco a contribuir para a defesa real do bem comum. O Nobel defende que seu trabalho é no plano das ideias, e comenta a defesa da reforma das leis trabalhistas na França, que fez no livro, por serem ineficientes e discriminatórias, gerarem altos índices de desemprego, baixa mobilidade entre empregos e alto custo para as contas públicas: “para a situação atual, as leis não servem, e isso vai ficar pior, pois com a revolução digital e a robotização os empregos vão se tornar cada vez mais de curto prazo. Não há uma saída simples. Precisamos ter claro que a meta é preservar o pacto social, preservar o trabalhador, investir em educação e treinamento constantes, além de novas formas de redistribuição,” ensina.