Eric Schmidt e (algumas) boas ideias de gestão do Google

O executivo que catapultou o Google é um apaixonado por coaching

O lançamento do livro “O Coach de Um Trilhão de Dólares” (Selo Estratégia da Editora Planeta), coloca novamente em evidência o bilionário Eric Schmidt, ex-CEO e ex-presidente do gigante da tecnologia Google e ex-presidente da holding Alphabet, de cujo conselho desembarcou em junho deste ano sem intenção de retornar, conforme tuitou na ocasião, “para possibilitar às novas gerações colocar suas ideias em prática,”  e também dedicar mais tempo à Schmidt Futures, obra filantrópica do casal Wendy & Eric. O livro é um trabalho conjunto de Schmidt e dois colegas do Google, Jonathan Rosenberg e Alan Eagle, sobre Bill Campbell, o coach de empresas e negócios falecido em 2016, considerado a arma secreta de Silicon Valley. Ele mesmo um ícone do universo corporativo, com fortuna avaliada em 13,9 bilhões de dólares, Schmidt considerou fundamental colocar em livro os ensinamentos de Campbell, com quem conviveu semanalmente durante 15 anos no Google, e a quem atribui o sucesso da empresa.

Schmidt foi contratado para ser o adulto responsável do Google

Eric Schmidt faz parte da geração desbravadora do Vale do Silício, tem 64 anos e formação em engenharia de software, tendo passado pela Bell Labs, Sun Microsystems e Novell, e aterrissado no Google em 2001, após entrevista com os legendários fundadores Larry Page e Sergey Brin. A trajetória seria longa: até 2011 como CEO, de 2011 a 2015 como presidente executivo, e de 2015 a 2018 como presidente executivo da holding Alphabet, posição que ocupou até janeiro daquele ano. À Schmidt é creditado o crescimento meteórico do Google, de startup de tecnologia à multinacional cuja marca está presente em todo o planeta, tendo realizado em sua gestão a aquisição do Youtube, o desenvolvimento do sistema operacional Android, Gmail, Google Maps e AdSense.

Contratado pelos jovens Page e Brin para prover um certo tipo de ‘supervisão adulta’ na empresa, Schmidt manteve e ficou conhecido por uma postura libertária: perguntado certa vez sobre o código de vestimenta no Google, ele replicou: “você precisa vestir alguma coisa.” Seu estilo de liderança, com um falar claro e pausado, quase professoral, era considerado sério e cuidadoso, voltado às pessoas e ao desenvolvimento de suas capacidades. De fato, ele confessa em entrevista dada ao editor-chefe da Yahoo, Andy Serwer, em abril deste ano, o quanto, semelhante ao famoso coach, ele acredita no estilo de gestão focado nas equipes: “Campbell era um coach de equipes, um mentor para todos nós. Ele sabia que trabalhar com equipes é a verdadeira forma de construir grandes empresas”.

O livro chega ao público brasileiro em 10 de agosto

O reconhecimento incontestável pela atuação frente ao Google pode ofuscar aspectos interessantes da personalidade de Schmidt, como o interesse pelo ambiente internacional, que ele explica, candidamente, por ter vivido dois anos na Itália quando garoto, em função do trabalho de seu pai, professor de Economia Internacional. Décadas mais tarde, ele integraria uma missão privada à Coréia do Norte, “a última sociedade fechada do mundo”, no início de 2013, na delegação do ex-governador do Novo México, Bill Richardson. “Meu interesse era conhecer a forma como o país usava a internet, e obviamente trabalhar para que ela fosse universal e aberta também para os norte-coreanos. Havia preocupação com a nossa segurança, mas eu tive certeza que tudo ficaria bem quando a Casa Branca condenou a missão. Eu sabia que o líder Kim Jong-un faria qualquer coisa para evitar que o governo americano tivesse razão. Tanto que levei minha filha comigo”, conta. Para o governo norte-coreano, o grupo ficou conhecido como ‘Google Delegation’.

Naturalmente é difícil separar o homem da obra. O estilo de administração de pessoas do Google, que virou moda no ambiente das startups mundo afora, suas técnicas de gestão, confundem-se não apenas com as figuras dos dois jovens fundadores, mas também com o executivo que a pilotou por quase duas décadas. Schmidt reafirma que a mentoria de Campbell tem grande responsabilidade pelo sucesso, mas também valoriza o processo de contratação do Google: “Page e Brin tinham dois critérios para contratar pessoas. Primeiro, que fossem pessoas interessantes, como um campeão olímpico ou um cientista de foguetes, ou médicos. Tínhamos pessoas assim na empresa, e não fazendo medicina ou qualquer outra coisa que faziam antes. Segundo, construir uma cultura de baixo para cima no fluxo de ideias e encorajar a inovação sistemática. Você não pode planejar inovação, mas pode sistematiza-la. No Google, tínhamos pessoas muito boas, as melhores, organizadas em equipes. A maioria das empresas funciona com um CEO brilhante, cercado por pessoas menos brilhantes, que fazem o que ele manda. Nós tínhamos pessoas brilhantes trabalhando em equipes.”

E mais uma vez, ele cita Bill Campbell, como em muitas outras entrevistas ao longo de sua carreira (clique no link abaixo para assistir, gravada em maio deste ano, apenas em inglês): “Bill dizia que devíamos encontrar as melhores pessoas do mundo em determinada área, dentro da empresa, e dizer a eles para encontrar a solução. Esta é uma boa regra.” Para administradores e criadores de startups Brasil afora, há muito mais a conhecer no livro.

Crédito da foto capa: Bloomberg