Douglas Rushkoff, o porta-voz do humano na era digital

“Não se trata de rejeitar o tecnológico, mas de recuperar os valores que estamos deixando para trás”

Douglas Rushkoff é uma voz da contracultura, um teórico da mídia, autor, professor e blogueiro que há mais de 20 anos pensa, escreve e fala sobre os efeitos da tecnologia digital, colocando-se ao lado de poucos que, desde o princípio da internet (há 30 anos, leia o post sobre Timothy Berners-Lee), alertam para os perigos desta nova era. Também é cartunista, compositor, produtor de documentários, um típico nova-iorquino imerso na velocidade da informação e do consumo, na cidade onde, possivelmente, ambos se manifestam com maior voracidade.

Conhecido por ter cunhado os termos ‘mídia viral’, ‘moeda social’, entre outros, e aclamado como um dos dez mais influentes intelectuais do mundo pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), Rushkoff é também um dos mais renomados críticos da era digital. A popularidade teve início na década de 90, quando ingressou no movimento cyberpunk, formado por filósofos, artistas e escritores interessados nos cruzamentos entre tecnologia, sociedade e cultura. O que ocorreu com seu primeiro livro, “Cyberia”, sobre a cibercultura, dá uma noção do pouco que se sabia então sobre a revolução que estava começando: “A Bantam (editora) iria publicar meu livro em 1992, mas desistiu, achando que até o ano seguinte, a internet teria terminado,” diz o autor. O livro foi publicado em 1994.

É preciso repensar como a tecnologia impacta a dignidade humana

Vinte livros depois – apenas dois deles editados em português, “Um Jogo Chamado Futuro” (1999) e “As 10 Questões Essenciais da Era Digital (2012) -, a crítica veemente de Rushkoff cada vez mais encontra eco na realidade, com as revelações escandalosas sobre o uso de dados de eleitores nos Estados Unidos pela Consultoria Cambridge Analytica e a sequência de multas bilionárias que o Facebook vem sofrendo nas mãos da justiça, em países europeus e nos Estados Unidos. Os dados estavam, afinal, sendo manipulados por empresas para obter lucro, e as pessoas podiam ser convencidas a votar em determinado candidato, como aparentemente o foram nas últimas eleições presidenciais americanas. “As pessoas são valorizadas por suas informações,” afirma, reeditando a máxima cuja autoria já foi creditada a diversos intelectuais, e parece refletir à perfeição a realidade de nossas interações digitais cotidianas: “se você não é o cliente, então você é o produto.”

 

O manifesto de Rushkoff : tecnologia, mercados e instituições deveriam promover colaboração e conexões, e não reprimir

Além dos livros, muitos deles best-sellers (Present Shock, Throwing Rocks at the Google Bus, Program or Be Programmed, Life Inc e Media Virus), o quixote do movimento global em prol de uma mídia digital a serviço da justiça econômica e social, é também premiado criador e apresentador de três documentários veiculados pela PBS, a rede pública de televisão norte-americana. Um dos mais populares, The Merchants of Cool, de 2001, (Os Mercadores do Cool, em tradução livre), é um passeio pelas estratégias do marketing voltado aos adolescentes americanos, e explica como acontece a busca pelo que será a próxima tendência de consumo, a criação de estilos e produtos para atender a um mercado anual de 150 bilhões de dólares. Nele, Rushkoff argumenta que, muito além de identificar tendências, os especialistas contratados por muitos milhares de dólares estão manufaturando modas, alienando toda uma geração, que cada vez mais se distancia da vida real e suas naturais frustrações.

Quer esteja na sala de aula – Rushkoff é professor de Teoria da Mídia e Economia Digital na City University of New York – Queens, onde criou o Laboratório para Humanismo Digital – à frente das câmeras ou nos podcasts, seu foco é sempre a relação entre a autonomia humana e os novos ambientes tecnológicos, e como impactam nas nossas interações com dinheiro, poder, narrativa, e uns com os outros. Palestrando para a plataforma TED em 2018, ele se autodefine: “eu costumava ser o cara que falava sobre o futuro digital para pessoas que não haviam ainda vivido nada digital. Agora, sinto que sou a última pessoa do mundo que ainda se lembra como era a vida antes da tecnologia digital.”

Em seu livro mais recente, “Team Human” (veja o TED Talk no pé da página), um manifesto em defesa das características mais definidoras do ser humano, como respeito, criatividade e colaboração, o autor reafirma que os seres humanos são cada vez mais valorizados pelo que representam em termos de informação, e seu consequente uso para gerar lucro: “Precisamos parar de usar a tecnologia para ‘otimizar’ pessoas para o mercado. Educação não é uma forma de preparar humanos para trabalharem com a tecnologia, mas de estimular a capacidade de apreciar a vida, a cultura, e pensar a respeito de si mesmas. Junte-se ao time humano, encontre os outros e vamos juntos criar o futuro que todos nós queremos.”