Carol Dweck ensina a atitude mental de crescimento

A psicologia da resiliência, criatividade e aprendizado constante

Por que algumas pessoas alcançam seu potencial criativo na vida profissional enquanto outras, igualmente talentosas, não? A psicóloga da Universidade Stanford, Carol Dweck, vem pesquisando o tema há mais de três décadas, e oferece a resposta: pessoas que acreditam terem nascido com toda a inteligência e talentos de que necessitam – as de ‘mentalidade fixa’ – não são tão bem sucedidas quanto aquelas que acreditam em expandir suas habilidades ao longo da vida – as de ‘mentalidade de crescimento’.

O foco do trabalho da americana de 72 anos foi influenciado por uma experiência de infância, quando cursava o sexto ano do ensino fundamental, numa escola pública do Brooklyn. A professora naquele ano colocava as crianças em áreas separadas de acordo com seu QI: as crianças com menor QI não podiam carregar a bandeira nas assembleias, nem limpar o quadro-negro. Para Dweck, “a professora deixou claro para todos que o QI era o critério máximo da inteligência e caráter que ela reconhecia, e assim os alunos que tinham as melhores notas estavam sempre com medo de não ir tão bem nos testes seguintes, e perderem seus lugares no ranking,” conta. Ela mesma ocupava o primeiro lugar na classe, mas se sentia desconfortável, “pois havia o sentimento de que você era avaliado apenas pelo resultado do último teste. Acredito que este método teve um efeito negativo não somente nas crianças que estavam no topo, como também nas que estavam mais abaixo, pois elas definiam a si mesmas daquela forma”.

O importante para desenvolver a atitude mental de crescimento é elogiar os esforços, não a inteligência

Toda a carreira da senhora elegante e de fala mansa foi engendrada nesta memória. Do bacharelado na Universidade Columbia e doutorado em psicologia na Universidade Yale, cátedras nas universidades de Illinois, Harvard e Columbia, Dweck mudou-se para a universidade Stanford em 2004, e em 2006 lançou o livro “Mindset – A Nova Psicologia do Sucesso” nos Estados Unidos. O livro foi lançado no Brasil pela Objetiva em 2017, e frequenta as listas dos mais vendidos nos dois países.

Lançado pelo selo Objetiva, da Cia. das Letras, o livro já vendeu mais de 1,5 milhão de cópias no Brasil

Os avanços científicos na compreensão do cérebro e sua capacidade de regeneração indicam que a tese na qual Dweck baseou seu estudo está correta. Sabemos hoje que o sistema nervoso pode/deve ser treinado para aprender novas habilidades e comportamentos, que o volume e a potência do cérebro humano aumentam ou diminuem, do início ao fim da vida, conforme as experiências vividas. Portanto, a mentalidade fixa, a atitude de pensar em si mesmo e nos fatos como coisas acabadas, é menos produtiva e mesmo aprisionante que a atitude mental de crescimento, que pressupõe que o ser humano pode aprender, desenvolver-se ao longo da vida, o que também leva a encarar os desafios naturais com mais resiliência.

A professora acredita que este tipo de mentalidade pode ser incutido, e deve ser, desde os primeiros anos de vida, através do reforço da atitude de crescimento: “dizer ao seu filho que ele é inteligente é menos produtivo do que parabenizar seu esforço e capacidade criativa”, afirma. Assim, a criança compreende que seu esforço e dedicação levaram-na a vencer o desafio (uma prova escolar, um trabalho de grupo, uma competição esportiva) ao invés de algo adquirido e estanque, como a inteligência. A mensagem tem sido replicada nas centenas de palestras que Dweck profere em ambientes como a Organização das Nações Unidas, TED Talks, Google Talks e Casa Branca.

A pesquisa de Dweck sobre inteligência e motivação, e como estas são influenciadas pelas atitudes mentais fixas e de crescimento, atraiu a atenção de professores cujos alunos apresentavam  baixa performance escolar, pais e mesmo executivos buscando ampliar as competências de suas equipes. O fundamento do raciocínio pode ser aplicado a qualquer grupo: pessoas com mentalidade fixa preferem tarefas que já conhecem e nas quais podem se dar bem, reforçando assim sua autoimagem, e evitam problemas novos. Pessoas com a atitude mental de crescimento não se sentirão desmotivadas por algo que não sabem, ao contrário, procurarão as ferramentas para alcançar um bom resultado, mesmo que falhem na primeira tentativa. Isso estimula a criatividade, promove bem-estar e fortalece a autoimagem.

O resultado da aplicação do Mindset pode avaliado pelas muitas cartas de profissionais das mais diversas áreas, principalmente professores, treinadores e profissionais de coaching, mas também pais e empresários, que a psicóloga recebe com frequência. “Uma coisa muito comum que acontece é que crianças brilhantes habitualmente param de trabalhar porque recebem elogios com tanta frequência que passam a querer só aquilo, não querem se ver como uma pessoa que comete erros. Isso sabota a motivação. O que tenho ouvido dos pais e professores é que agora compreendem como prevenir isso, como trabalhar com crianças com baixa performance para motivá-las e manter aquelas de alta performance motivadas, para que alcancem seu maior potencial. O ponto é elogiar os esforços, não a inteligência”, ensina.