‘Boz’ Saint John aposta na autenticidade para alcançar o sucesso

“Vivemos num mundo de palavras-chave… o que é mesmo diversidade? Vamos falar de negros, latinos, LGBT,” diz a executiva pop

Bozoma “Boz” Saint John é uma das figuras mais originais entre a legião de novos executivos do mundo digital, e não apenas por sua origem ganesa (nasceu nos Estados Unidos, mas morou em Gana, terra natal dos pais, até os 12 anos), sua altura que se destaca em qualquer ambiente (mais de 1,80 m) ou estilo de vestir extravagante. A executiva de 42 anos é também uma palestrante carismática, com um estilo forte e determinado, destemido até, características que sem dúvida têm auxiliado a carreira de grande sucesso na América corporativa, mais conhecida pela timidez do que pelo entusiamo quando se trata de abraçar a diversidade.

Bozoma é a atual Chief Marketing Officer (CMO) da Endeavor, líder global em entretenimento, esportes, música e moda, com operações em mais de 30 países. Bem antes da Endeavor, formou-se em estudos afro-americanos e inglês na Wesleyan University e começou sua carreira em marketing e relações públicas em Nova York. Em 2000, conseguiu um emprego na DDB, a agência de publicidade de Spike Lee.  A seguir foi para a Pepsi Co., onde liderou o departamento de marketing e foi responsável por associar a marca a festivais de música e entretenimento, e onde permaneceu por quase dez anos. Em 2014, mudou-se para  Beats Music, serviço de streaming de músicas por assinatura, depois adquirido pela Apple. Vivendo entre Nova York e Los Angeles (Cupertino, sede da Apple), Boz tornou-se diretora da área de marketing global da iTunes e Apple Music. Em 2016, na conferência mundial de desenvolvedores da Apple, a imprensa declarou: “Bozoma roubou o show“. Sua apresentação do novo Apple Music foi “cativante, sua persona, apaixonante.”

“Acredito que cada um de nós é uma molécula cuja mudança afeta o sistema todo. Sua alegria, positividade, excelência afeta todo o seu entorno”

Em 2017, assumiu no Uber, contratada para melhorar a imagem da empresa, desafio grandioso frente à série de acusações de assédio sexual e uso de drogas, além dos escândalos pessoais envolvendo o então CEO e cofundador da empresa, Travis Kalanick. “Mesmo agora, as pessoas continuam me questionando o motivo de aceitar um emprego no Uber. Respondo que é porque segui minha intuição. É importante assumir riscos, todos sabemos que é onde encontramos as maiores recompensas,” disse em entrevista à revista Forbes em 2017, logo depois de assumir. A experiência duraria aproximadamente um ano, até junho de 2018, quando ela assumiu na Endeavor, a primeira mulher a ocupar o cargo.

Criatividade, força, originalidade, coragem, são muitos os adjetivos usados quando se trata da profissional que, aos 12 anos, numa tentativa de compreender seu novo ambiente (interior do estado do Colorado), se tornou obcecada pela cultura pop. Tudo a sua volta, desde as conversas no corredor da escola, até os programas de televisão, vídeos, revistas, música e artes eram ferramentas para conectar com o novo mundo. A experiência serviu para formar uma profissional profundamente conectada e observadora, capaz de garimpar tendências e criar produtos inovadores e extremamente bem-sucedidos.  Não à toa, o CEO da Endeavor, Ari Emanuel, declarou quando de sua contratação: “a visão criativa de Bozoma tem o poder de criar momentos culturais transformadores para as marcas, estou entusiasmado com o que virá quando essa visão estiver sobre a lista de clientes e portfolio de marcas que estão moldando as conversas em torno da cultura no mundo diariamente, por meio dos diferentes negócios da Endeavor”.

Os pilares do carisma e autoconfiança que cada vez mais colocam Boz no topo da pirâmide corporativa, ela conta na palestra dada na última edição do SXSW (assista no pé da página). Cabelos enormes, unhas longuíssimas, saia brilhante prateada, nada na figura da executiva é retraído ou envergonhado: “meus pais sempre me ensinaram que não importava de onde você era ou em que lugares tinha vivido, você precisava sempre honrar e lembrar sua cultura. Muito cedo minhas irmãs e eu precisamos conviver em ambientes muito diferentes de nossas origens, mas nunca tivemos a sensação de que precisávamos ‘nos ajustar.’ Meus pais me ensinaram que eu não precisava fingir ser outra pessoa para agradar ninguém.”

“Sua experiência tem valor, sua experiência é o que cria a cultura. Quando você estiver em algum ambiente, qualquer que seja, traga tudo o que você é. Pode soar clichê, mas não fazemos isso o suficiente. Especialmente, não em ambientes corporativos”

O trabalho da executiva é dedicado a uma família de empresas voltadas as mais diversas atividades criativas, empresas como a WME (representante de artistas, escritores, modelos, diretores de televisão e cinema), IMG (representante de modelos e atletas), Miss Universe Organization, Professional Bull Riders Association, UFC. Todas elas operam sob o guarda-chuva da Endeavor, “e a minha função é navegar em todos estes mundos e criar as estratégias para todas estas empresas, descobrir como todas elas se conectam,” explica. A julgar pelos reconhecimentos da indústria nos últimos anos – Billboard Magazine (Mulheres Top na Música), Fast Company (100 Pessoas Mais Criativas) e AdWeek (Personalidades Mais Estimulantes na Publicidade) – uma função que está apenas começando.