A futurista e os desafios da Inteligência Artificial

Pesquisadora e autora Amy Webb conecta os pontos para mostrar o futuro

Amy Webb é futurista (ela se define como futurista quantitativa), mas diz que não faz previsões, faz conexões. Em seus livros e palestras pelo mundo todo – são três livros publicados até o momento, nenhum deles em português – ela explica que os dados estão por toda parte, e sua função é conectar os sinais do que está acontecendo, analisar os dados e fazer estimativas do que irá acontecer em 10, 15 ou mesmo 50 anos. Com um radar apurado, fruto de uma formação acadêmica que passeia entre economia, ciência da computação. sociologia e jornalismo, entre outros, e de anos na juventude atuando como jornalista freelance e professora de inglês no Japão – viveu também na China –, Amy vem se afirmando no cenário internacional como uma das vozes mais confiáveis quando se trata de destrinchar a revolução da Inteligência Artificial e o que ela representa para empresas, governos e seres humanos.

A carreira jornalística iniciou no Wall Street Journal (economia e tecnologia) e passou pela revista Newsweek (em Hong Kong, cobrindo tecnologias emergentes). Em 2006, criou o Future Today Institute, com objetivo de “ajudar líderes e organizações a prepararem-se para profundas incertezas e futuros complexos.” Para disseminar as conclusões de seus estudos, o instituto passou a publicar em 2007 o relatório anual “Tech Trend Report”, uma análise das futuras tecnologias e seu impacto sobre a sociedade a curto e longo prazo.

Reconhecer e interpretar sinais, para criar cenários

Na carreira multifacetada, a jornalista de 45 anos, com mestrado pela Universidade Columbia de Nova York, encontra tempo também para ensinar: é professora da Escola de Administração Stern da Universidade de Nova York, na área de Previsão Estratégica. Como escritora, Amy tem três livros publicados: um de memórias, Data, A Love Story, de 2013, onde ela analisa o universo do namoro online a partir das próprias experiências; The Signals Are Talking: Why Today’s Fringe Is Tomorrow’s Mainstream, de 2016, onde descreve sua metodologia para previsão estratégica, considerado pela Medium online um dos 15 livros sobre o futuro que são leitura obrigatória; e The Big Nine: How the Tech Titans and Their Thinking Machines Could Warp Humanity, lançado em março deste ano, que prevê os cenários mais e menos favoráveis sobre a IA nos próximos 50 anos e explica por que a G-Mafia, termo criado por ela para agregar as maiores empresas de tecnologia americanas Google, Microsoft, Amazon, Facebook, IBM e Apple, que juntamente com as chinesas Baidu, Alibaba e Tencent, têm o maior controle sobre o desenvolvimento da IA, alertando para a importância em considerar com prioridade os interesses da humanidade.

“Há um otimismo injustificado sobre a Inteligência Artificial, fruto de nossa ignorância sobre o fato de que humanos estão a cargo de seu desenvolvimento e utilização,” declarou a pesquisadora, para o público de um painel internacional em Davos este ano. Nele, Amy recomendou a formação de uma Aliança Global sobre a Expansão da Inteligência, uma organização central para desenvolver padrões para o que pode ser automatizado no que tange à captação e compartilhamento de dados, antecipando um futuro com uma profusão de sistemas inteligentes.

O TED Talk sobre o livro Data, A Love Story foi traduzido para 32 idiomas e já foi visto mais de 6,7 milhões de vezes

O reconhecimento mundial passou a pipocar nos anos 2000: em 2012, a revista Forbes apontou-a como uma das “Mulheres que estão mudando o Mundo,” na categoria Tecnologia. Também em 2012, a Escola de Jornalismo da universidade Columbia nomeou-a “Uma das 20 Mulheres a Observar.” Em 2017, a “Thinkers50 Radar” apontou-a como uma das 30 pessoas a liderar o futuro das organizações, e também lhe outorgou o prêmio “Thinkers50 Radar.” Em 2018 ela estava no grupo de experts do Festival do Wall Street Journal “Futuro de Tudo”, onde falou sobre o crescente papel da inteligência artificial na vida diária; em 2019, participou do Fórum Econômico Mundial de Davos.

Construindo uma reputação invejável na análise de uma área relativamente nova, e cuja compreensão é ainda um desafio para a maioria dos mortais, Amy tornou-se também palestrante internacional, aparecendo nos mais badalados eventos de tecnologia e inovação. Em março deste ano, foi o festival SBSW (South by Southwest), onde o maior auditório do evento lotou para ouvi-la apresentar os resultados da 12ª edição do relatório “Tech Trend”, com mais de 300 tendências e 48 cenários possíveis para o futuro – sendo 17 destes cenários perspectivas otimistas, 20 neutras e 11 catastróficas. Estas são algumas das principais previsões/conexões apresentadas na palestra (o relatório está disponível gratuitamente no website do instituto):

  1. O enfraquecimento dos celulares como interfaces digitais – as vendas de aparelhos moveis vêm caindo e cresce a popularidade de produtos embarcados com reconhecimento de voz;
  2. Redes de conexão inteligente invadem o ambiente doméstico, nos equipamentos e usos mais mundanos e cotidianos, sendo um exemplo a parceria da Amazon com a construtora Lenner, para construir Amazon Homes equipadas com aparelhos integrados: “estes aparelhos poderão rastrear dados de interação da sua família, otimizar a dinâmica da casa, desde o uso da energia até consertos que precisam ser feitos,” disse ela;
  3. A disseminação de técnicas de manipulação e reconhecimento genético para melhoria de produtos naturais, da saúde de animais e também de humanos, como exemplo a americana Recombinectics, que trabalha em técnicas de manipulação genética para gerar animais que suportam condições de temperatura extremas;
  4. A disseminação de scanners biométricos, máquinas que “sentem” nosso estado de espírito e tentam responder a nossas emoções, como o carro criado pela Kia e o MIT, com tecnologia de reconhecimento emocional, capaz de responder ao humor do usuário alterando esquemas de cores de painéis e sons. “O desafio será regulamentar essa área e definir parâmetros de segurança e ética”, disse Amy.
  5. A probabilidade de que as mudanças climáticas das próximas três décadas dificultem a produção e entrega de alimentos para parte da população irá pressionar o desenvolvimento de métodos de produção alternativos. “Na China e no Japão, algumas empresas já possuem fazendas subterrâneas que produzem vegetais em laboratório em maior volume, gastando 40% menos energia e até 99% menos água do que métodos convencionais”, disse.