A filosofia da incerteza, por Nassim Taleb

O polêmico autor do sucesso internacional “Arriscando a Própria Pele”

As características que tornam o libanês naturalizado americano Nassim Nicholas Taleb um dos mais falados, lidos e criticados intelectuais do momento podem confundir o leitor: atuou com bastante sucesso, por 21 anos, como corretor de derivativos e fez fortuna no mercado financeiro, antecipando a crise de 2008. A seguir reinventou-se como pesquisador dos aspectos filosóficos, matemáticos e dos problemas práticos da vida contemporânea, a partir da probabilidade. Já ensinou em diversas universidades, e atualmente é professor na Faculdade de Engenharia da Universidade de Nova York, no curso de Engenharia de Risco. Seus mais de 70 trabalhos acadêmicos abordam diversas áreas – filosofia, estatística, ética, assuntos internacionais – sempre tendo como base as noções de risco e probabilidade.

A repercussão internacional teve início com a publicação do livro “Iludido pelo Acaso” (2001), eleito pela revista Fortune como um dos 75 livros mais inteligentes já escritos. Seguiram-se “A Lógica do Cisne Negro” (2007), “A Cama de Procusto” (2010), “Antifrágil” (2012) e “Arriscando a Própria Pele” (2018), uma série a qual o autor decidiu dar o nome de Incerto. Em seu despojado website, Taleb define a série como “um ensaio filosófico e prático sobre incerteza;  uma investigação de (até agora) 5 volumes sobre opacidade, sorte, incerteza, probabilidade, erro humano, risco e processo decisório quando não entendemos o mundo, expressa em forma de um ensaio pessoal com seções autobiográficas, histórias, parábolas e discussões filosóficas, históricas e científicas, em volumes que não se sobrepõem, e podem ser lidos em qualquer ordem.”

O livro, lançado aqui em 2018, está na lista dos mais vendidos do jornal New York Times

Cisne negro, um evento imprevisível que põe em risco o status quo

Tamanha versatilidade provavelmente tem origem em sua história de vida, que inicia em berço privilegiado no Líbano, educação em escola francesa na capital Beirute, e passa por mestrado em Ciências na Universidade de Paris e Escola de Administração de Wharton da Universidade da Pennsylvania. Na gênese familiar encontram-se avô e bisavô em posições de poder político, ambos vice-ministros do Líbano no período de 1940 a 1970. A Guerra Civil libanesa, entre os anos de 1975 e 1990, levou a uma substancial redução da influência e recursos da família, um cisne negro em sua melhor definição: eventos inesperados e imprevisíveis que podem colocar tudo a perder na trajetória de pessoas, países e organizações.

Taleb é um exímio criador de termos: antifrágil (a qualidade de florescer no caos), cisne negro (eventos imprevisíveis de grande impacto), cientismo (algo com aparência de ciência, mas sem rigor cientifico), ou o debochado acrônimo IMI (intelectual mas idiota) são alguns exemplos do senso de humor ácido que penetra toda sua obra e já lhe rendeu desafetos em vários campos: o psicólogo canadense-americano Steven Pinker, o Prêmio Nobel de Economia Richard Thaler, o jornalista e historiador Thomas Friedman. O livro mais recente, “Arriscando a Própria Pele”, dá algumas indicações dos motivos, expondo o que Taleb acredita ser a falta de skin in the game (literalmente, pele no jogo, ou em bom português, colocar o seu na reta). Ter a própria pele no jogo quer dizer ser afetado pelas decisões que se toma, como um político que decide sobre um projeto de saneamento para a cidade onde vive. Por isto, de acordo com o autor, é preciso pensar os governos de baixo para cima, e locais em vez de globais. É a única forma dos representantes do povo terem sua pele no jogo, o que faria com que suas decisões tivessem como base a eficácia, a eficiência e o melhor retorno financeiro. “O localismo é melhor do que o universalismo,” afirma. “Ser de esquerda ou de direita é uma discussão enganosa… você pode ser comunista no nível familiar, social-democrata no nível da cidade e libertário no nível nacional. O importante é a descentralização do poder.”

Intelectuais nem sempre têm pele no jogo

Apesar de pertencer ao limitado círculo de intelectuais com repercussão mundial – seus livros já foram traduzidos para 31 idiomas – , Taleb não aceita títulos acadêmicos e honoríficos, nem prêmios, nem faz questão de participar de listas do tipo ‘os 100 mais…’, o que ele considera “depreciações do conhecimento, que o transformam em um esporte para espectadores’.

Munido deste rigor e ceticismo, o autor também dispara contra o cenário atual das pesquisas sociais e científicas, que considera distantes do que se espera de um estudo sério e consistente: “Menos da metade das pesquisas descritas em artigos se sustenta, quando são refeitas por equipes diferentes. Isso não é ciência, mas eles nos fazem acreditar que seja. Os intelectuais não têm uma métrica para a gente saber se estão falando bobagem. Um matemático, você sabe se ele faz algo grande ou idiota. Um intelectual, não.”

Recusando encaixar-se em definições, mesmo as mais elogiosas, Taleb colocou-se em um patamar diferenciado, aquele do intelectual avesso ao pensamento de manada, inarredável na crítica do que acredita ser posicionamentos insensatos, desconectados da realidade e dos efeitos na vida de quem os emite. Ética e responsabilidade são, certamente, aspectos definidores deste pensador contemporâneo, que não hesita em declarar: “se você vê a fraude e não grita fraude, você é uma fraude”.