30 anos da criação da internet. Como serão os próximos 30?

O pai da web, um dos mais importantes nomes do século 20, reflete sobre o futuro da internet

O inglês Timothy Berners-Lee é um dos nomes mais fundamentais do final do século 20 e princípio do 21, além de membro de um restrito clube de gênios que mudaram o mundo. Foi ele que no dia 12 de março de 1989, há 30 anos portanto, propôs o sistema de gerenciamento de informações que deu origem ao world wide web, a partir do qual nosso mundo acelerou à velocidade estelar. Em novembro do mesmo ano, Berners-Lee conseguiu estabelecer comunicação entre um cliente HTTP e um servidor através da internet. A história da comunicação humana nunca mais foi a mesma.

O cidadão londrino, agora com 64 anos, é um dos palestrantes internacionais mais relevantes quando o tema é tecnologia/inovação, um dos mais apreciados entrevistados, tanto para veículos especializados quanto para grandes jornais mundo afora, além de atuar como professor de Ciência da Computação nas prestigiosas universidades Oxford e MIT. É diretor do Consórcio World Wide Web(W3C), que coordena o desenvolvimento da rede, e criador da Fundação World Wide Web, mais conhecida como Fundação Web, uma ONG internacional voltada à defesa de uma rede aberta e gratuita para todos. Este é um dos temas mais sensíveis ao coração do nobre cientista, que recebeu o título de ‘Sir’ das mãos da Rainha Elisabeth II em 2004, por seu trabalho pioneiro.

A rede deve ser aberta e gratuita a todos, defende seu criador

Em artigo publicado na revista Wired online sobre o futuro da rede, Sir Tim manifesta uma antiga preocupação, com a coerência do cientista que, tendo criado um sistema de comunicação absolutamente revolucionário, ofereceu-o ao mundo gratuitamente: “A rede se tornou uma praça pública, uma biblioteca, um consultório médico, uma loja, uma escola, um estúdio de design, um escritório, um cinema, um banco, e tantas coisas mais. É claro que com cada novo avanço, cada novo website, a divisão entre aqueles que estão online e os que não estão aumenta, tornando mais imperativo fazer com que a rede esteja disponível para todos.”

O manifesto a favor da rede, disponível no website da Fundação Web, é uma análise objetiva e sem preconceitos de seus benefícios e malefícios, e também de como podemos, como uma comunidade global, trabalhar para que, além de estar ao alcance de todos, ela seja igualmente um ambiente livre dos perigos mais conhecidos, dos quais nenhum de nós, usuários, está livre nestes dias: a disseminação de mensagens de ódio, violência e preconceito, o uso de dados pessoais para benefício comercial de grandes empresas, a facilidade para cometer todos os tipos de crimes.

O funcionamento inadequado da rede, argumenta Sir Tim, tem base em três diferentes pontos: intenção deliberada e maliciosa, a exemplo de ações de hacking e ataques patrocinados por governos, comportamento criminoso e assédio virtual; o atual design do sistema, que cria incentivos perversos onde o valor para o usuário é sacrificado (anúncios do tipo caça-clique que premiam comercialmente notícias sensacionalistas e falsas); e consequências negativas não intencionais, proporcionadas pelo design do sistema, como a duvidosa qualidade e o tom ofensivo e polarizado do discurso online.

Para atacar estes problemas, Sir Tim defende, no primeiro caso, a criação de leis para o ambiente online, assim como as que existem no ambiente offline; no segundo caso, o redesenho do sistema para modificar os incentivos à comercialização indiscriminada; e por último, a realização de pesquisas para compreender os sistemas atuais e a criação de novos sistemas, ou uma rápida melhora dos já existentes.

An Interconnected World (Photo by NASA)

A rede foi criada para unir pessoas e disseminar gratuitamente informação e conhecimento

Mudanças na rede não irão acontecer sem um esforço concentrado, deliberado e corajoso de muitos atores, em praticamente todos os países do mundo. Sir Tim tem plena consciência da enormidade da tarefa, e tem sido um porta-voz incansável do movimento em prol do aperfeiçoamento da rede: “se não agirmos com rapidez e eficácia agora, promovendo as mudanças necessárias em escala global, não terá sido falta da própria rede, mas nossa”, justifica.

“Contrato Pela Rede”, documento que compila as ações consideradas fundamentais para salvaguardar a web agora e aperfeiçoá-la para as futuras gerações, foi lançado em Lisboa por ocasião do Web Summit, em 5 de novembro de 2018. Nele, há providências claras e específicas a serem tomadas por governos, empresas e indivíduos, por exemplo: aos governos caberá assegurar que a rede se mantenha aberta para todos, garantindo os direitos fundamentais dos cidadãos à privacidade. Às empresas caberá respeitar a privacidade e os dados pessoais dos usuários. As pessoas precisarão criar comunidades fortes e lutar pela dignidade humana.

O desafio está lançado, e não há nenhuma dúvida de que é de longo prazo. Sir Tim pensou a web como uma plataforma aberta que permitiria a todos, em todos os lugares, compartilhar informação, acessar oportunidades e colaborar, além de fronteiras geográficas e diferenças culturais. Em suas próprias palavras, “não é cabível culpar um governo, uma rede social ou o espírito humano. Narrativas simplistas nos colocam em risco de exaurir nossa energia na tarefa de identificar sintomas, ao invés de focar na raiz das causas. Para agirmos acertadamente, precisamos nos unir como uma comunidade global da web.”

 

Foto Capa: Henry Thomas. / Web Foundation.